Comentários a duas questões
“O Ciberespaço é uma democracia?”
“Governos do mundo industrial, (…) venho do Ciberespaço, o novo lugar da mente. Em nome do futuro, peço a vós do passado que nos deixeis em paz. Não sois bem-vindos entre nós. Não exerceis nenhuma soberania sobre o lugar onde nos reunimos. Não elegemos nenhum governo, nem pretendemos tê-los, assim dirijo-me a vós sem nenhuma autoridade maior do que aquela que a liberdade sempre fala (…). Estamos criando um mundo em que todos podem entrar, sem privilégios ou preconceitos de raça, classe, religião, poder militar ou lugar de nascimento. Estamos criando um mundo onde qualquer pessoa, de qualquer lugar, pode expressar suas crenças, sem se importar com o quão singular sejam, sem medo de ser coagido ao silêncio ou ao conformismo. (…) Criaremos uma civilização da mente no Ciberespaço. Que seja mais humana e bela que o mundo que vossos governos criaram antes”.
[John Perry Barlow, in “Declaração de Independência do Ciberespaço”]
Segundo Henrique Antoun, “o entendimento das redes permite-nos, hoje, devolver ao pensamento a realidade do espaço, a sua cidadania real no seio do mundo, afirmando que o chamado “espaço real” é apenas um caso do ciberespaço, e que o espaço virtual é aquele que de facto nós sempre habitamos. Nele uma democracia torna-se possível, porque a multidão armada pelas tecnologias da informação e comunicação mediada por computador, fazem o problema da cidadania pós-moderna e da segurança pública, convergirem na direcção da organização das comunidades virtuais, apontando na direcção de um novo pacto democrático.”[1]
O ciberespaço foi-se, ao longo dos tempos, desenvolvendo-se de uma forma autónoma, em base de trabalho cooperativo e de liberdade de criação. Tudo o que é colocado na rede passa a ser universal, público e acessível, democrático por essência e livre por sua concepção, onde surge uma espécie de cidadão global.
Por ser um espaço não configurado, de território não demarcado e livre das imposições do mundo real, dos fanatismos e das ditaduras [embora estes também tenham a liberdade de se manifestar nele] o ciberespaço permite novas projecções e vivências, permite aspirar a uma nova organização social, novos conceitos, permitindo intercâmbios culturais e participação politica passiva e/ou activa, que de outra forma dificilmente poderiam vir a manifestar ou a acontecer. Abriram-se múltiplos formatos de participação global a nível da cidadania, com o surgimento de imensas redes organizadas, lutando por variadíssimos interesses e conceitos, pressionando os processos sociais e políticos, proporcionando por isso, novos e fundamentais espaços para as praticas democráticas. É esta a verdadeira essência e cultura da Internet.
Apesar das diversas tentativas de controlo por parte de governos autoritários de todo o mundo, a comunidade virtual sempre conseguiu desenvolver processos de impedir a censura, através de criativos e projectistas de softwares, activistas hackers e outros que navegam, cruzando-se em milhares de fóruns e grupos de discussões. Por isso há quem afirme que a arquitectura da rede, é a arquitectura da liberdade.
[1] “A Multidão e o Futuro da Democracia na Ciberesfera” [texto disponibilizado na plataforma da disciplina Cibercultura] ou excerto aqui.
“WILL BLOGS KILL OLD MEDIA?”
Os blogues vieram ocupar um lugar essencial na comunicação contemporânea, embora, não tenham vindo substituir os velhos media, nomeadamente a televisão e os jornais, nem colocar em risco o seu espaço. Estamos perante conceitos muito diferentes.O fenómeno bloguístico, que se fundamenta na partilha de ideias, pensamentos, testemunhos e até mesmo na disciplina da critica, trouxe uma lufada de ar fresco à informação generalista e também de especialidade, imprimindo cunhos pessoais ao género de pequenas anotações e de diário de bolso. É um processo intimista, tanto da parte do seu autor, como da parte de quem o lê.
Podemos observar que os blogues não substituem a televisão nem os jornais, pois não fornecem a informação mediática, rápida e reflectida, e até porque, vejamos, mais depressa os blogues utilizam fontes dos media para seu suporte de emissão de notícias disponibilizados no ciberespaço, do que o contrario, serem os media a pegarem em fontes publicadas na net. Porém, o facto dos blogues coexistirem com os velhos media e serem uma ferramenta mediática de fácil acesso, de certa forma vieram interferir no sistema, ou seja, vieram provocar na comunicação social a obrigatoriedade de imprimir uma maior qualidade de informação, maior imparcialidade, rectidão e atitude assertiva, sobre a sã ameaça do voyeurismo permanente por parte dos inúmeros autores de blogues, talvez os “primeiros” a assimilar a informação diária fornecida pelos média. Digamos que o meio bloguístico tem o dom do manuseamento posterior da informação, imprimindo plasticidade à mesma, seja ela mais, ou menos séria, analisando-a, criticando-a, e até mesmo responsabilizando-a.
Outra das diferenças que podemos observar, é que a blogoesfera é uma forma de expressão editorialmente livre, de conteúdos duvidosos, proliferando fontes anónimas, permitindo muitas das vezes o boato gratuito e a calunia, enquanto que do lado dos media, toda a orgânica se rege de modo diferente, obrigada a princípios previamente legislados, e dever de transparência e isenção.
Conclui-se portanto, não existir o risco dos velhos media virem a ser aniquilados pela blogosfera, pelo menos nos tempos que correm e com as tecnologias existentes.